terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O anjo que fumava


Voltava de Vitória quando encontrei a derrota e sem trocadilhos: O ônibus que me levaria de Campinas para Cordeirópolis, na casa dos meus pais partira há 5 minutos. O outro, apenas no dia seguinte. Confesso que não me importo por dormir na rodoviária, pelo chão, ou passar a noite emzumbizado nos bancos nada confortáveis e urinar aos arredores do saguão, atrás de ônibus, para não pagar a maldita taxa de limpeza ou sei lá o que é aquilo que inventaram para arrancar dinheiro com as necessidades fisiológicas dos seres viventes.
Um dia o mundo será melhor, quando proibirem de cobrar do cidadão comum para este, usar o banheiro e melhor ainda será quando os homens, conseguirem mijar certinho na água do vaso, o que eu acho um sacrifício quase insuportável.
Foi nessa de procurar um local apropriado para as necessidades fisiológicas que eu encontrei com eles. Um, mais velho. Boné torto na cabeça, tatuada uma coroa de espinhos na perna, bolsa nos ombros, mãos sujas de tinta, olhar penetrante, ativo, vivo, acelerado. Passava de guichê em guichê, perguntando qual dos ônibus passaria por Leme. O outro, mais novo e mais gordo. Tatuagens por todo o corpo, boné para trás, uma mala antiga, tênis sujos, olhos claros. Foi por ouvir o destino que eles procuravam que eu me intrometi e disse: Mano, ônibus pra Leme só amanhã de manhã. É o mesmo que o meu.
Eles então, preocupados questionavam: E se parar na metade? E se pegarmos um taxi? E se conseguirmos uma carona de caminhão?
No fim dos questionamentos sem respostas, fomos obrigados a admitir que a noite seria longa, de muita conversa e que aqui na terra, a vida nos prega peças, principalmente o tempo, que é obstinado por nos encurralar.
Deitamos no chão da rodoviária. Eu e meus conhecidos. Perguntei seus nomes. Felipe e Rafael. Brinquei: Nome de anjo e de discípulo. Eles riram.
Estava quase adormecendo, apesar da dor nas costas do chão duro, quando uma senhora com um carrinho daqueles de limpeza de chão de Shopping Center e outro rapaz, forte com uniforme ou farda, nos disse que era proibido dormir ali. Logo, me lembrei das torturas que li num livro sobre as ditaduras no Mundo. O prisioneiro era obrigado a ficar em pé, numa caixa com muitos pregos por todos os lados. Caso ele cansasse ou dormisse, os pregos lhe enfiavam na pele e nos ossos.
Os meus mais novos conhecidos tinham vindo de uma cidade perto de Caraguá, eles trabalhavam colocando gesso nos tetos de prédios de gente rica. Eles ainda mostravam nas roupas as marcas do trabalho. E eu, mulambento como sempre, parecia que havia recém-chegado de um Festival da Flanela Quadriculada. Fomos andando, sem rumo, apenas para lutar contra o sono quando vimos um jovem de terno, paletó na cabeça, pés sobre as malas, dormindo da mesma forma que nós dormíamos mas com uma diferença: Ele não foi incomodado. O sono dele era importante, talvez.
Percebemos um ônibus saindo para Americana. Cidade vizinha de Campinas, mas pelo menos mais próxima da nossa. Foi o Rafael quem deu a ideia de irmos até lá. Fomos, dormindo, roncando, acabados de cansaço. Ao chegar, constatamos: A rodoviária era nossa. Não havia nenhum anjo para proteger, nenhum demônio para atormentar, nenhum menino de rua cheirando cola e nenhum guarda fardado à proibir sonhos e sonos. Acordados, apenas nós e Deus. Vimos ao longe, uma placa vermelha indicando hotel. Foi o Rafael, novamente, quem propôs de irmos até lá, tentar a proteção das paredes e um colchão. Fomos, mas ao chegar, constatamos que não passava de um motel, ou bordel, com a entrada e saída de casais no qual a mulher usava as roupas típicas das profissionais do sexo e o homem tinha o olhar típico dos profissionais do cio.
Um rapaz, com cara de travesti nos atendeu, falando pouco, mal humorado, resmungando e cortando a fala para atender telefonemas. Rafael disse: Perdemos nosso ônibus, estamos cansados e gostaríamos de passar a noite aqui por causa do perigo de dormir na rodoviária. O rapaz, fez cara de não sei, mordeu o lábio, entortou a cara e disse: 30 mangos vocês ficam num quarto com goteira, sem água e cama, apenas 3 colchões, topam?
Existem perguntas que o cansaço é que responde, então topamos.
O quarto era uma espelunca. Cada um deu 10 reais. Eu dei meus únicos 10 reais. Fiquei de comprar a passagem no dia seguinte, com o cartão.
Acordamos com o telefone tocando às 5 da manhã. O rapaz com cara de travesti disse que nossa hora havia acabado. Fomos, sonolentos, até a rodoviária. Lá, não havia guichês abertos, era necessário pagar a passagem direto ao motorista, meu ônibus estava partindo e eu não tinha como pagar com cartão direto ao motorista. Foi quando o Rafael, arrancou dinheiro, pagou minha passagem ao motorista e disse: Vai mano, se livra desse cansaço. Acendeu um cigarro e menosprezou minha gratidão como se pagar minha passagem fosse a sua obrigação.
Eu fui agradecer-lhe doando um dos livros que eu trazia na mochila, quando ele desapareceu. Enquanto eu guardava a mala no bagageiro, ele sumiu. Perguntei ao motorista: O senhor viu aqueles dois rapazes comigo? Ele respondeu: Foram por ali. Eu fui, e nada. O ônibus que os levaria para Leme era o mesmo que o meu. Nada. Não os encontrei. Fiquei confuso. Ao entrar no ônibus vi o cigarro, queimando no chão, quase inteiro.
Rafael e Felipe, meus companheiros de madrugada sumiram.
Eu tomei o ônibus, e no caminho pensei sobre a vida que nos prega peças.
Sobre os anjos que se disfarçam de gente ou de gente que se faz de anjos.
Em Limeira, ouvi o policial militar falar sobre o assalto que fizeram no caixa eletrônico da rodoviária de Americana durante a madrugada.

Gito.